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Quirguistão Dividido

Louise Arbour, Público  |   9 Sep 2010

O que aconteceu com o Quirguistão nos últimos meses tem sido uma descida vertiginosa rumo ao caos político

Há um vazio no mapa da Ásia Central, onde o Quirguistão costumava estar. Um país outrora considerado um enclave de relativa tolerância e democracia numa região de deficientes regimes autoritários é hoje uma terra profundamente dividida, praticamente um Estado falhado. Se a resposta internacional não for rápida e ousada, as consequências serão desastrosas.

O que aconteceu com o Quirguistão nos últimos meses tem sido uma descida vertiginosa rumo ao caos político. Após anos de má gestão e corrupção, o presidente Kurmanbek Bakiyev foi deposto em Abril por um governo provisório que tem fracassado na sua tentativa de estabelecer a autoridade sobre grande parte do país. Face à fraqueza do Estado, uma explosão de violência, destruição e saques tomou conta do Sul do Quirguistão em Junho, matando a centenas de pessoas – a maioria uzbeques –, destruindo mais de 2000 edifícios, principalmente habitações, e aumentando o abismo entre as duas comunidades étnicas do país, os quirguizes e uzbeques.

No processo, o Governo central perdeu todo o controlo do Sul; controlo que em algum momento poderia ter sido reivindicado. Melis Myrzakmatov, o nacionalista implacável e resoluto jovem presidente da câmara de Osh, a maior cidade do Sul do Quirguistão, emergiu a partir do derramamento de sangue vivido recentemente no país com a sua resistência política e suas credenciais extremistas mais fortes do que nunca. E esse contexto foi reforçado ainda mais na semana passada pela embaraçosa e mal sucedida tentativa de afastar Myrzakmatov do seu actual cargo: a chefe de Estado provisória do Quirguistão, Roza Otunbayeva, ordenou que ele renunciasse ao posto. Myrzakmato não só recusou a ordem, como também afi rmou a uma multidão de seguidores em Osh que Bishkek não tinha autoridade no Sul. O presidente da câmara foi ainda mais longe ao comprometer-se em transferir a capital do país para Osh.

Agora, com uma competição declarada entre o humilhado Governo provisório, por um lado, e o autarca renegado do outro, o Sul do Quirguistão constitui uma ameaça à segurança, tanto na própria região, como fora dela. Enquanto o Sul e muitas das forças de segurança localizadas nesta zona permanecem fora do controlo central, o comércio de estupefacientes, que já tem um peso importante no país, poderia estender o seu poder ainda mais. O Departamento das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) estima que a cada ano 95 toneladas de drogas passam pelos Estados da Ásia Central com destino à Rússia e à Europa. Não é à toa que Osh é conhecida como
o “eixo regional da actividade do tráfico”.

A região também poderia tornar-se rapidamente um ambiente acolhedor para os guerrilheiros islâmicos. Não é somente o facto de o vácuo político poder proporcionar-lhes uma oportunidade de conquistar novos recrutas e adeptos. Os eventos de Junho (o pogrom contra os uzbeques) aprofundaram o abismo entre os dois grupos étnicos existentes na região e uma outra erupção é inevitável, se o nacionalismo extremista continuar sem controlo, nem freio. Da próxima vez, a parte vitimada poderia pedir auxílio aos radicais islâmicos.

O regresso à estabilidade será longo e difícil, até porque não existe uma segurança fi ável ou foi sequer implantado um rigoroso acompanhamento na área afectada. O Quirguistão precisa de um inquérito internacional sobre os pogroms, de uma presença policial internacional e diplomática o mais visível possível para evitar que os mesmos episódios se repitam, isto além de uma estreita coordenação na reconstrução efi caz das cidades e das comunidades no país.

De momento, as perspectivas de que qualquer uma destas propostas se convertam em realidade não são promissoras. Mesmo a tardia força simbólica de 52 polícias conselheiros desarmados da Organização para a Segurança e para a Cooperação na Europa (OSCE) tem sido alvo da ira nacionalista dos quirguizes, os quais o Governo central e a própria OSCE estão tristemente relutantes em travar. Quando as autoridades do Estado não estão dispostas ou são incapazes de estabilizar a situação no país, a comunidade internacional precisa de ser mais activa. O mundo precisa de apoiar uma investigação sobre os confl itos étnicos de Junho, com um papel central atribuído a organizações internacionais com experiência neste campo, tais como o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos e o Alto Comissário da OSCE para as Minorias Nacionais. A comunidade internacional deve deixar claro que a ajuda adicional ao Governo do Quirguistão estará condicionada a tal investigação.

A comunidade internacional necessita ainda de defi nir uma estratégia unifi cada para a reconstrução do Sul do país, incluindo um acompanhamento exaustivo no terreno para garantir que nenhuma ajuda económica seja desviada para extremistas nacionalistas
ou funcionários corruptos. Em particular, os doadores terão de garantir que o dinheiro não vai parar às mãos do governo regional de Osh, enquanto este defender uma política de exclusão étnica e resistir em submeter-se à autoridade do Governo central. Infelizmente, a situação já está muito avançada e os esforços internacionais para ajudar o país dividido e quase à beira da desintegração podem ser absolutamente tardios. O Conselho de Segurança das Nações Unidas, em particular os Estados Unidos e a Rússia, necessitam de realizar o planeamento de contingência activa para que a comunidade internacional e as suas instituições-chave estejam em condições de responder de forma oportuna e efi caz a quaisquer futuras ondas de violência e de fl uxos de refugiados.

Pode parecer um pouco optimista esperar que a comunidade internacional tome tais medidas depois do mundo inteiro ter demonstrado uma falta de interesse deliberada em envolver-se nos problemas do Quirguistão, mesmo quando os confl itos de Junho ganhavam cada vez maior dimensão. A alternativa, no entanto, é fi carmos parados a assistir à implosão contínua de todo o país.

Louise Arbour é Presidente do International Crisis Group.

Público


 

 
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