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Situação Egípcia traz Oportunidades para o Hamas

Nathan Thrall, Folha de S.Paulo  |   12 Sep 2012

O Hamas nunca enfrentou desafios e oportunidades tão grandes quanto os proporcionados pelas revoltas árabes. O movimento abandonou sua sede em Damasco --a um custo alto para os laços com o Irã, sua maior fonte de apoio estatal-- e vem ampliando as relações com países aliados dos EUA como Egito, Qatar e Turquia. Chamado a tomar partido numa disputa regional crescente, o Hamas vem procurando não optar por nenhum lado. As tensões internacionais estão no auge, centradas em como reagir às mudanças regionais no curto prazo.

Líderes do Hamas na Cisjordânia e no exílio tendem a pensar que, com a ascensão da Irmandade Muçulmana egípcia e a aproximação do Ocidente com os islâmicos, é chegada a hora de dar passos mais ousados em direção à unidade palestina. Isso pode facilitar o processo de maior integração regional e internacional do Hamas. Já a liderança em Gaza hesita em dar passos estratégicos mais amplos em meio a um futuro regional ainda incerto.

Os levantes árabes não poderiam ter provocado uma inversão mais absoluta da sorte do Hamas. Nos anos de estagnação que os precederam, o movimento islâmico ficou diplomaticamente isolado, economicamente encurralado pelo Egito e Israel, esmagado pelas forças de segurança israelenses e da Autoridade Palestina na Cisjordânia, e tendo que administrar com muito cuidado um cessar-fogo instável com um adversário muito mais poderoso. Incapaz de atender às reivindicações populares de reconciliação com o Fatah, o Hamas estava preso nas contradições de ser um movimento islâmico restrito pela governança secular e um movimento de resistência que se opunha ativamente aos ataques contra Israel partindo da Faixa de Gaza.

Enfrentando a redução de sua popularidade desde as eleições legislativas palestinas de 2006 que o conduziram ao poder, o Hamas era criticado externa e internamente. Sofreu a deserção de um contingente pequeno mas importante de militantes que o deixaram para aderir a grupos mais engajados em defender a lei islâmica e atacar Israel. Havia pouco para animar o movimento, exceto o fato de o Fatah não estar se saindo melhor que ele.

As revoltas árabes pareceram ter mudado tudo isso. Para o Hamas, foram fatos positivos a derrubada do presidente egípcio Hosni Mubarak, forte aliado árabe do Fatah, e a ascensão no Egito da Irmandade Muçulmana, a maior fonte de apoio do Hamas, além de ser seu movimento "pai". Foram reduzidas as restrições no posto de travessia entre Gaza e o Sinai em Rafah, cujo controle o regime egípcio anterior utilizava para pressionar, restringir e empobrecer o que considerava serem os governantes ilegítimos da Faixa de Gaza. Os partidos islâmicos de outros países ganharam mais poder, e a instabilidade cresceu nos países com grandes oposições islâmicas. A região parecia estar repleta da promessa de uma ordem regional nova, mais democrática, refletindo a aversão ampla a Israel e seus aliados e a afinidade popular com o Hamas.

Na visão do Hamas, estes e outros fatos prometiam favorecer cada um de seus objetivos principais: governar a Faixa de Gaza, enfraquecer o domínio do Fatah na Cisjordânia, difundir os valores islâmicos, acabar com seu isolamento diplomático e reforçar as alianças regionais em oposição a Israel.

Mas as mudanças regionais também tiveram um custo. Sobretudo, o levante na Síria, onde o burô político do Hamas teve sua sede por mais de uma década, impôs um desafio grande ao movimento, dividindo-o entre exigências contrárias. Por um lado, gratidão a um regime que lhe ofereceu apoio quando quase todos os outros países árabes mantiveram distância dele; o custo de romper relações com um regime que ainda se aferra ao poder, e o risco de desagradar ao Irã, sua maior fonte de apoio e fornecedor de dinheiro, armas e treinamento. Por outro lado, a ligação do Hamas com a Irmandade Muçulmana e os árabes sunitas de modo mais geral, além de sua dívida com o povo sírio. Pairando sobre tudo isso havia as obrigações do Hamas para com as centenas de milhares de refugiados palestinos, que poderiam pagar com suas casas e suas vidas pelas decisões tomadas por alguns de seus líderes políticos.

As escolhas que o Hamas fará em termos de alianças regionais ainda não estão claras, em grande medida em função das divisões inusitadamente evidentes e profundas que se manifestaram após a primeira das revoltas árabes. Embora divisões no movimento não constituam novidade e sejam anteriores à autoimolação do camelô tunisiano Mohamed Bouazizi, as desavenças de hoje dizem respeito à melhor maneira de beneficiar-se da turbulência regional e o que sacrificar ao fazê-lo. Por enquanto, a unidade vem prevalecendo no movimento, mas apenas porque as opções táticas e estratégicas estão sendo adiadas e o movimento está aderindo à sua posição padrão, de inação.

A questão que se coloca para a comunidade internacional, e especialmente para os EUA e a Europa, é se ela aprendeu as lições dos últimos seis anos suficientemente bem. Ela cometeu o erro de pensar que poderia desfazer as eleições legislativas de 2006, o que levou à separação entre a Cisjordânia e a Faixa de Gaza no ano seguinte; depois disso, agravou o erro ao imaginar que a divisão dos territórios ocupados representasse uma oportunidade para Ramallah selar a paz com Israel e para a comunidade internacional forçar o Hamas a ceder o poder numa Faixa de Gaza cercada e estagnada. Hoje existe um reconhecimento amplo de que os dois pilares dessa política --a paz entre Israel e Ramallah e o enfraquecimento do Hamas-- foram ilusórios. Mas não emergiu nenhuma outra alternativa. A mudança bastante dramática nas políticas dos EUA e UE em relação à Irmandade Muçulmana pode oferecer uma oportunidade nesse sentido.

Com a região e o Hamas numa encruzilhada, o mínimo que os EUA e a UE deveriam fazer em troca de o movimento assumir compromissos --como um cessar-fogo genuíno na Faixa de Gaza, contribuir para a estabilização do Sinai, dar a Abbas um mandato para negociar com Israel e concordar em respeitar os resultados de um referendo popular-- é deixar claro que tratarão com um governo de união cuja plataforma e ações estejam em harmonia com esses princípios.

Nathan Thrall é analista de Oriente Médio para o International Crisis Group.

Folha de S.Paulo

 
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