Quirguistão Dividido
Quirguistão Dividido
Opportunities and Challenges Await Kyrgyzstan’s Incoming President
Opportunities and Challenges Await Kyrgyzstan’s Incoming President
Op-Ed / Europe & Central Asia

Quirguistão Dividido

O que aconteceu com o Quirguistão nos últimos meses tem sido uma descida vertiginosa rumo ao caos político.

Há um vazio no mapa da Ásia Central, onde o Quirguistão costumava estar. Um país outrora considerado um enclave de relativa tolerância e democracia numa região de deficientes regimes autoritários é hoje uma terra profundamente dividida, praticamente um Estado falhado. Se a resposta internacional não for rápida e ousada, as consequências serão desastrosas.

O que aconteceu com o Quirguistão nos últimos meses tem sido uma descida vertiginosa rumo ao caos político. Após anos de má gestão e corrupção, o presidente Kurmanbek Bakiyev foi deposto em Abril por um governo provisório que tem fracassado na sua tentativa de estabelecer a autoridade sobre grande parte do país. Face à fraqueza do Estado, uma explosão de violência, destruição e saques tomou conta do Sul do Quirguistão em Junho, matando a centenas de pessoas – a maioria uzbeques –, destruindo mais de 2000 edifícios, principalmente habitações, e aumentando o abismo entre as duas comunidades étnicas do país, os quirguizes e uzbeques.

No processo, o Governo central perdeu todo o controlo do Sul; controlo que em algum momento poderia ter sido reivindicado. Melis Myrzakmatov, o nacionalista implacável e resoluto jovem presidente da câmara de Osh, a maior cidade do Sul do Quirguistão, emergiu a partir do derramamento de sangue vivido recentemente no país com a sua resistência política e suas credenciais extremistas mais fortes do que nunca. E esse contexto foi reforçado ainda mais na semana passada pela embaraçosa e mal sucedida tentativa de afastar Myrzakmatov do seu actual cargo: a chefe de Estado provisória do Quirguistão, Roza Otunbayeva, ordenou que ele renunciasse ao posto. Myrzakmato não só recusou a ordem, como também afi rmou a uma multidão de seguidores em Osh que Bishkek não tinha autoridade no Sul. O presidente da câmara foi ainda mais longe ao comprometer-se em transferir a capital do país para Osh.

Agora, com uma competição declarada entre o humilhado Governo provisório, por um lado, e o autarca renegado do outro, o Sul do Quirguistão constitui uma ameaça à segurança, tanto na própria região, como fora dela. Enquanto o Sul e muitas das forças de segurança localizadas nesta zona permanecem fora do controlo central, o comércio de estupefacientes, que já tem um peso importante no país, poderia estender o seu poder ainda mais. O Departamento das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) estima que a cada ano 95 toneladas de drogas passam pelos Estados da Ásia Central com destino à Rússia e à Europa. Não é à toa que Osh é conhecida como o “eixo regional da actividade do tráfico”.

A região também poderia tornar-se rapidamente um ambiente acolhedor para os guerrilheiros islâmicos. Não é somente o facto de o vácuo político poder proporcionar-lhes uma oportunidade de conquistar novos recrutas e adeptos. Os eventos de Junho (o pogrom contra os uzbeques) aprofundaram o abismo entre os dois grupos étnicos existentes na região e uma outra erupção é inevitável, se o nacionalismo extremista continuar sem controlo, nem freio. Da próxima vez, a parte vitimada poderia pedir auxílio aos radicais islâmicos.

O regresso à estabilidade será longo e difícil, até porque não existe uma segurança fi ável ou foi sequer implantado um rigoroso acompanhamento na área afectada. O Quirguistão precisa de um inquérito internacional sobre os pogroms, de uma presença policial internacional e diplomática o mais visível possível para evitar que os mesmos episódios se repitam, isto além de uma estreita coordenação na reconstrução efi caz das cidades e das comunidades no país.

De momento, as perspectivas de que qualquer uma destas propostas se convertam em realidade não são promissoras. Mesmo a tardia força simbólica de 52 polícias conselheiros desarmados da Organização para a Segurança e para a Cooperação na Europa (OSCE) tem sido alvo da ira nacionalista dos quirguizes, os quais o Governo central e a própria OSCE estão tristemente relutantes em travar. Quando as autoridades do Estado não estão dispostas ou são incapazes de estabilizar a situação no país, a comunidade internacional precisa de ser mais activa. O mundo precisa de apoiar uma investigação sobre os confl itos étnicos de Junho, com um papel central atribuído a organizações internacionais com experiência neste campo, tais como o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos e o Alto Comissário da OSCE para as Minorias Nacionais. A comunidade internacional deve deixar claro que a ajuda adicional ao Governo do Quirguistão estará condicionada a tal investigação.

A comunidade internacional necessita ainda de defi nir uma estratégia unifi cada para a reconstrução do Sul do país, incluindo um acompanhamento exaustivo no terreno para garantir que nenhuma ajuda económica seja desviada para extremistas nacionalistas ou funcionários corruptos. Em particular, os doadores terão de garantir que o dinheiro não vai parar às mãos do governo regional de Osh, enquanto este defender uma política de exclusão étnica e resistir em submeter-se à autoridade do Governo central. Infelizmente, a situação já está muito avançada e os esforços internacionais para ajudar o país dividido e quase à beira da desintegração podem ser absolutamente tardios. O Conselho de Segurança das Nações Unidas, em particular os Estados Unidos e a Rússia, necessitam de realizar o planeamento de contingência activa para que a comunidade internacional e as suas instituições-chave estejam em condições de responder de forma oportuna e efi caz a quaisquer futuras ondas de violência e de fl uxos de refugiados.

Pode parecer um pouco optimista esperar que a comunidade internacional tome tais medidas depois do mundo inteiro ter demonstrado uma falta de interesse deliberada em envolver-se nos problemas do Quirguistão, mesmo quando os confl itos de Junho ganhavam cada vez maior dimensão. A alternativa, no entanto, é fi carmos parados a assistir à implosão contínua de todo o país.

Presidential candidate Sooronbai Jeenbekov casts his ballot at a polling station during the presidential election in Bishkek, Kyrgyzstan October 15, 2017. REUTERS/Vladimir Pirogov

Opportunities and Challenges Await Kyrgyzstan’s Incoming President

The inauguration of Kyrgyzstan’s new president on 24 November is a tribute to the country’s parliamentary democracy. But to overcome continued vulnerability, Sooronbai Jeenbekov must manage powerful southern elites, define the role of religion in society and spearhead reconciliation with Central Asian neighbours Kazakhstan and Uzbekistan.

Sooronbai Jeenbekov will be inaugurated as Kyrgyzstan’s fifth president on 24 November, the victor of a tight, unpredictable, contested but ultimately legitimate election. The new leader, a loyal member of the ruling Social Democratic Party of Kyrgyzstan (SDPK), won 54 per cent of the vote and gained a majority in every province but Chui and Talas – the home territory of the defeated main opposition candidate Omurbek Babanov.

As president, Jeenbekov will face a number of challenges and opportunities, both at home and in Central Asia. The state Committee for National Security (GKNB) on 4 November opened an investigation against Babanov for inciting ethnic hatred based on a speech he made on 28 September in an ethnic-Uzbek area of Osh, a city in southern Kyrgyzstan’s Ferghana Valley. Babanov called on Uzbeks to defend their rights and for any Kyrgyz police officers who harassed Uzbeks to be dismissed. Some observers see the GKNB case as politically motivated.

While tensions remain high in Osh, the epicentre of violent ethnic clashes that left 400 mostly Uzbeks dead in June 2010, unrest could also occur elsewhere. Babanov travelled abroad after the campaign, but if he returns he could be arrested at the airport, raising the possibility of protests in his stronghold of Talas, a city 300km west of Bishkek. His arrest and trial would undermine Kyrgyzstan’s international credibility, lay bare the politicisation of the security services and the judiciary, and show unwillingness to tackle deep-seated inter-ethnic issues in the south.

While tensions remain high in Osh, the epicentre of violent ethnic clashes that left 400 mostly Uzbeks dead in June 2010, unrest could also occur elsewhere.

Former President Almazbek Atambayev, also from the SDPK, was sometimes unpredictable but managed to balance competing regional and business interests inside Kyrgyzstan, key factors in the ousting of Presidents Kurmanbek Bakiev in 2010 and Askar Akayev in 2005. Jeenbekov will have to replicate this balancing act and make a strategic decision whether or not to reestablish central government control in Osh, which operates like a fiefdom. The latter risks upsetting heavy-weight figures in the south with vested interests, but in the long term, a failure to do so will perpetuate internal political tensions.

The new president will also have the opportunity to shape the debate about the role of religion in society. For too long – and much like other Central Asian states – Kyrgyzstan has overly securitised its response to those practicing non-traditional forms of Islam, creating tensions and resentments, while politicians leading a secular state make public displays of piety integral to their political personas. Kyrgyzstan is widely perceived as an easy target for terrorist activity, as the August 2016 attack on the Chinese embassy demonstrated. It will be essential to find a balance between assessing what are real risks and what are questions of religious freedoms and civil rights.

As soon as he takes office, Jeenbekov should make every effort to repair Kyrgyzstan’s relationship with Kazakhstan, which deteriorated spectacularly after President Atambayev accused Astana of meddling in the Kyrgyz presidential election to bolster Babanov. Astana responded by introducing strict customs controls on the Kyrgyz-Kazakh border citing concerns about Chinese goods being smuggled through Kyrgyzstan. The disruption on the border is negatively affecting Kyrgyzstan’s economy and Kyrgyzstan has complained to the World Trade Organization and to the Russian-led Eurasian Economic Union, a trade bloc of which Kazakhstan is a founding member. Russia has so far failed to make any meaningful comment on the standoff.

The degree to which Kazakhstan is motivated by anger at Atambayev or genuine concerns about cross-border smuggling is unclear. Still, it will fall to Jeenbekov to spearhead a reconciliation. How open-minded Kazakhstan will be to resolving the spat will also depend on whether or not they see Jeenbekov as a strong, independent leader or merely Atambayev’s puppet.

There is now scope to improve relations with Uzbekistan in a way that was unimaginable before President Shavkat Mirziyoyev took office in December 2016. Much of the initiative is coming from the Uzbek side but the amount of progress made between the two states is remarkable. Regional cooperation, in the long term, will foster stability in Central Asia and Kyrgyzstan can play a leading role in both practicing and promoting the type of cooperation that defuses tensions in border areas and over shared resources such as water and energy. By doing so Kyrgyzstan and Uzbekistan can provide a model of collaboration and peacebuilding in the region.

Having been the first country in Central Asia to see a president voluntarily leave his post at the end of his constitutionally mandated term, Kyrgyzstan is in many respects light years ahead of its neighbours.

Kyrgyzstan is still a young parliamentary democracy in a difficult neighbourhood. If Jeenbekov is to continue Atambayev’s program of fighting corruption, efforts need to extend beyond targeting the SDPK’s political opponents. Kyrgyzstan and its partners should begin to address how corruption in politics can be tackled. Beyond the technical success of casting votes electronically, there are many opportunities for illegal practices. Organization for Security and Cooperation in Europe (OSCE) election observers said the presidential elections were legitimate, but local concerns focus on arrests of opposition figures, vote buying and the misuse of administrative resources.

Having been the first country in Central Asia to see a president voluntarily leave his post at the end of his constitutionally mandated term, Kyrgyzstan is in many respects light years ahead of its neighbours. Tajikistan could be facing a potentially destabilising transition in 2020, and Kazakhstan’s President Nursultan Nazarbayev, 77, cannot hold power forever. Any regional stress will be quickly felt in Bishkek, another reason that Jeenbekov should focus on bolstering Kyrgyzstan’s long-term stability while the situation is calm.

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