Quatro coisas a saber sobre a crise alimentar no Chifre da Africa
Quatro coisas a saber sobre a crise alimentar no Chifre da Africa
Climate and Conflict at COP27
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Op-Ed / Africa

Quatro coisas a saber sobre a crise alimentar no Chifre da Africa

A fome voltou ao Chifre da África, e a Somália é o país mais afetado. Pela primeira vez desde o início dos anos 90, as Nações Unidas declararam estado de fome em algumas partes do sul da Somália, o que significa que mais de 30% da população está desnutrida.

Três fatores principais explicam a situação. Primeiro, a precipitação pluvial foi escassa durante os últimos dois anos, causando a perda generalizada de colheitas e esgotamento das reservas de alimentos. Segundo, os preços dos alimentos dispararam em todo o mundo, por isso a escassez de produção entre os pobres não pôde ser compensada com importações. Finalmente, a insegurança crônica no sul da Somália tem agravado a situação. Grande parte do sul da Somália é controlada por Al-Shabaab, o grupo militante islâmico em guerra com o Governo Federal de Transição, apoiado pela comunidade internacional. Al-Shabaab também impediu que muitas agências internacionais distribuíssem ajuda alimentar às áreas afetadas.

Se a ajuda humanitária não chegar às pessoas no sul da Somália imediatamente, os fluxos de refugiados ainda poderão comprometer a segurança alimentar nos países vizinhos.

A comunidade internacional tem de agir — e agir rápido — para interromper a crise crescente. Enquanto a comunidade internacional considera as suas opções, aqui estão quatro coisas para se manter em mente.

  1. Não deixe que o Al-Shabaab renegue o seu impulso humanitário. O governo dos EUA expressou a preocupação de que a assistência à Somália pode acabar nas mãos da Al-Shabaab, uma organização considerada como terrorista. Como resultado, em 2010, a ajuda dos EUA para a Somália caiu para apenas um décimo do que era dois anos antes. É verdade que os grupos armados estavam "tributando" a ajuda humanitária, mas isso é inevitável em situações de emergência complexas. Qualquer benefício marginal que Al-Shabaab derive da ajuda externa é de longe superado pela boa vontade e maior estabilidade geradas pela ajuda internacional. Essa é também uma forma importante de mostrar aos somalis e ao mundo muçulmano em geral que o Ocidente se preocupa com mais do que apenas travar uma guerra contra o terrorismo.
     
  2. Em vez disso, pense nisso como uma oportunidade. Al-Shabaab não é uma organização monolítica. Nela, há tanto radicais quanto pragmáticos. Em julho, a organização fez duas declarações, uma atraente ao retorno de agências humanitárias internacionais e a outra alegando que qualquer notícia sobre fome era "propaganda pura". Impulsionar a ajuda internacional pode contribuir para atrair os membros dispostos a renunciar ao terrorismo.
     
  3. Dito isso, as inciativas internacionais devem trabalhar conjuntamente. Tentativas de estabilizar a Somália devem ser coordenadas e cuidadosamente geridas. Reportagens da Somália sugerem que muito do deslocamento populacional interno é diretamente atribuível às campanhas militares do Governo Federal de Transição, financiado internacionalmente. Tanto quanto possível, a ação militar contra o Al-Shabaab não deve agravar uma situação humanitária que já é precária. O auxílio não deve tampouco fortalecer senhores da guerra reemergentes.
     
  4. A melhor maneira de evitar a fome no longo prazo é promover a paz e a estabilidade. Não é nenhuma surpresa que a crise é muito menos grave na Somalilândia e Puntland, regiões autônomas no norte da Somália que têm permanecido relativamente estáveis. Ajuda alimentar imediata e a curto prazo deve ser seguida por iniciativas de longo prazo para promover a estabilidade e a boa governança. Isso significa olhar para além do foco estreito de derrotar Al-Shabaab. Dado que o Governo Federal de Transição é corrupto e ineficaz, os doadores internacionais não devem concentrar-se exclusivamente no governo central em Mogadíscio, mas também apoiar autoridades locais que sejam estáveis, ágeis e responsáveis.

A resposta internacional a crises de fome geralmente é apresentada como uma missão humanitária. Ainda que por si só isso mais do que justifica o envolvimento internacional, os governos devem também considerar que a ajuda alimentar na Somália e no Chifre da África é estratégica, pois pode mudar as percepções negativas sobre o Ocidente e reduzir a insegurança em toda a região. Eles devem entrar em ação.
 

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