Entrevista: Governo Chávez não tem política de segurança
Entrevista: Governo Chávez não tem política de segurança
On the Horizon: March - August 2024
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Interview / Latin America & Caribbean 2 minutes

Entrevista: Governo Chávez não tem política de segurança

O Exército e a Guarda Nacional da Venezuela não estão tomando medidas contra as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) no lado venezuelano da fronteira, opina Markus Schultze-Kraft, diretor do "think thank" International Crisis Group. Os motivos, diz ele, são a falta de política de segurança no país, os indícios de corrupção e, possivelmente, falta de disposição política.

Leia a íntegra da entrevista concedida à Folha por telefone.

Folha - O sr. acha que o rompimento das relações bilaterais entre Venezuela e Colômbia vai se manter após a posse do Juan Manuel Santos, presidente colombiano eleito?

Markus Schultze-Kraft - O que vemos da parte de Chávez é de sempre deixar uma porta aberta de que com o novo governo poderá dialogar melhor. Mas é preciso exigir de Caracas que de fato dialogue. Há sinais muito forte quanto à presença de grupos armados em território venezuelano, acusações que não podem ser subestimadas. É do próprio interesse do país fazer frente à presença de grupos armados ilegais estrangeiros em seu território. Nenhum país soberano deveria contentar-se com isso, e sim investigar e tomar medidas punitivas.

Folha - Mas acha que o governo Chávez fará isso em algum momento?

Schultze-Kraft - O problema é que o governo Chávez não tem uma política de segurança, e tem uma taxa de homicídio mais alta que a Colômbia. Não há na Venezuela uma capacidade real de enfrentar grupos armados ilegais estrangeiros. E se suspeita e se alega que as forças de segurança têm elevados níveis de corrupção. [Cria-se a]combinação da dificuldade venezuelana em aplicar a lei em seu território, de problemas de corrupção e da falta de uma política de segurança. Seria imperativo para o governo desenhar uma política [na área].

Folha - Quais as diferenças entre combater o narcotráfico e combater um exército irregular, como as Farc?

Schultze-Kraft - Não se pode separar muito. As Farc estão profundamente envolvidas [no narcotráfico], e portanto é preciso aplicar [contra o grupo] as medidas legais. Mas é certo que as Farc são mais que um narcocartel. São uma organização guerrilheira com uma história de 45 anos com atuação militar distinta das estruturas armadas de grupos de narcotráfico. É um grupo híbrido. Isso tem que ser levado em conta quando alguém desenha uma política de segurança.

Folha - O Exército está preparado para combater do seu lado da fronteira?

Schultze-Kraft -Não achamos que o Exército ou a Guarda Nacional da Venezuela estejam tomando medidas contra as Farc e outros grupos. Se têm capacidade, isso é outra pergunta.

Folha - E por que não?

Schultze-Kraft - Por um lado, não há uma política de segurança desenhada na Venezuela para fazer frente ao problema dos grupos ilegais no país. Por outro, está a corrupção. O narcotráfico corrompe. Em terceiro lugar, há analistas e setores na Venezuela que dizem que, por razões políticas, não são tomadas ações por se considerar que a existência desses grupos no país ajuda a criar uma situação de insegurança que pode ser de benefício do governo. [Haveria] disposição do governo de usar a presença negativa e caótica desses grupos para [trazer] benefícios políticos.

Folha - Em que sentido?

Schultze-Kraft - O argumento de alguns setores é que a presença cria insegurança, dificulta que grupos da sociedade civil possam se organizar. É um fator que debilita a sociedade civil.

Folha - O controle sobre a fronteira está melhor ou pior?

Schultze-Kraft - Infelizmente, a situação se caracteriza pela falta de controle. Não há trabalho conjunto entre os países para patrulhá-la. É um espaço aberto.

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